Notei que ele ajeitava seus óculos, lutando contra sua pouca a visão, tentando enxergar os ônibus que estavam vindo desenfreadamente. Ele me pediu que o ajudasse, avisando quando eu visse a linha X... naturalmente, fui prestativo e puxei algum assunto pra fazer companhia.
De mochila nas costas, ele me disse que estava voltando do trabalho. Era aposentado, mas não conseguia viver com apenas o salário mínimo que recebia... tinha que fazer um trabalho extra numa praça ali perto.
Fiquei me perguntando quantas pessoas dependiam financeiramente dele... e que tipo de trabalho extra ele ainda fazia (com aquela idade, coitado). Não tive coragem de perguntar. Na nossa breve conversa, ele me advertiu sorrindo, experiente, que a minha situação futura deveria ser pior, afinal, agora estão dificultando as leis para a aposentadoria... eu vou ter que trabalhar mais e me aposentar mais tarde. Se prepare, meu filho... dizia o senhor com ar cansado e a pele marcada pela idade. Um legítimo trabalhador brasileiro, ajeitando seu bonezinho e tentando enxergar as placas luminosas dos ônibus que vinham na nossa direção.
Lamentei bastante por tudo aquilo.
Seja pelo tempo, seja pela segurança, eu já estava convencido que era melhor deixar de ser pão duro e ir de uber, mas eu não poderia deixar aquele senhor ali sozinho. Pensei inclusive em deixá-lo em casa, mas eu não tinha a menor idéia de onde ficava o bairro que ele estava indo. Então, no mínimo, eu iria esperar que o ônibus dele chegasse.
Conversamos mais um pouco, trocando experiências, até que seu ônibus finalmente chegou. Nos despedimos rapidamente, e o ônibus arrancou pela avenida. Entrei numa conveniência ali do lado, por segurança, e chamei um uber.
Estou solteiro, não tenho filhos... e fiquei pensando que a aposentadoria dele não pagaria sequer as minhas despesas com moradia... sem contabilizar a alimentação e todas as outras coisas. Muito punk. Me senti meio mal. Mas me senti também muito grato pelas oportunidades que tive, pelas coisas que lutei e conquistei. Percebi que, em geral, não valorizamos o que temos... aquilo que está ali todo mês. Parece que nossas coisas estão simplesmente onde deveriam estar. Estranho, né? Ao mesmo tempo, nos irritamos facilmente quando algo pequeno não corre como o esperado... quando não fica exatamente como queremos ou gostamos. Não possuir coisas supérfluas parece ser o fim do mundo.
"Existem pessoas que adorariam ter os seus dias ruins".
Sou mais um na blogosfera de finanças, e estou na corrida para a IF... mas não quero desaprender a viver em comunidade, ser parte do todo, sentir as dores do outro e estender a mão.
Sou bastante observador e um ávido colecionador de causos... conhecer aquele senhor valeu a minha noite. Me ajudou a ser mais grato, enxergar e valorizar mais as coisas que tenho.










